Textos e Artigos Complementares.  

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A diferença entre o Candomblé e a Umbanda.

O motivo.

Xangô.

É uma Religião.

Origens do Candomblé. 

Ética nas Religiões Afro Brasileiras.

Odù, Calendários, etc.

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Seus comentários e sugestões.


A diferença entre o Candomblé e a Umbanda.

Elucidar de uma forma definitiva a diferença entre Candomblé e Umbanda, é um dos meus grandes objetivos com esta obra, pois a frase mais comum que ouvimos como candomblecista, após uma explanação mesmo que resumida é que: eu achava que tudo era a mesma "coisa". O que primeiro respondo quando me perguntam sobre a diferença entre Candomblé e Umbanda, é que: não há semelhança, esta eu considero a melhor resposta, pois é o fato, não há a menor semelhança. A começar pelas origens, o Candomblé é uma religião africana que existe desde os tempos mais remotos daquele continente, que é o berço da terra, de forma que se funde sua origem com os primeiros contatos de pessoas que lá chegaram, existem citações na teologia africana que Odudúwa era Nimrod, o conquistador caldeu primo de Abraão e neto de Caim, que foi designado por Olodumarè para levar a remissão e a palavra de Olurún (Deus) aos filhos de Caim que, amaldiçoados, viviam na África. Este fato data de 1850 A.C., sendo que Caim pode ter vivido entre 2100 a 2300 A.C. - Oranian , neto de Odudúwa , viveu em 1500 e seu filho Xangô por volta de 1400. As coincidências existentes nos rituais africanos, como a Kaballah hebraica, são imensas, e vem provar a tese da estreita ligação entre Abraão, pai dos semitas, e Odudúwa, (Nimrod) pai dos africanos. Isso pode ser constatado no relacionamento existente entre o símbolo de um elemental africano chamado Dan a serpente, e uma das 12 tribos de Israel, cujo nome é Dan, e seu símbolo, a serpente telúrica. Citação que faremos adiante na Teologia Yorubana que fala da criação da terra. De uma forma básica, no Candomblé não existem "incorporações" de espíritos, pois os orixás, de quem sentimos força e vibrações, são energias puras da natureza, que não passaram pela vida, ou seja não são "entidades", mas elementais puros da natureza, criados por Olorún. No Candomblé a consulta é feita através da leitura esotérico/divinatória do jogo de búzios (no Brasil), forma de leitura exclusiva do povo candomblecista, que trataremos em capítulo próprio, e o tratamento para cada caso, é feito com elementos da natureza, oriundos dos reinos vegetal, animal e mineral, através e ebós, oferendas, Orôs (rezas) e rituais africanos. A Umbanda por sua vez, sem qualquer demérito a quem a pratica, pois se levada de uma forma séria e consciente tem seu mérito, valor e aplicação, é uma religião brasileira, que advém do sincretismo católico-fetichista, necessário em uma época de grande repressão das religiões africanas, em que era proibido o culto dos orixás na sua forma de origem, e esta adaptação se fez necessária, a partir desta premissa, a Umbanda começou tomar corpo, com algum conhecimento de alguns africanos no trato com seus ancestrais, que era comum a "incorporação" de algum ente falecido, por um elégún (aquele que é montado por) por motivos familiares. É muito comum nos dias de hoje, Ilês que praticam Candomblé e Umbanda, porém em dias, horários e formas diferenciados, mas é uma atitude não compactuada, bem como a utilização do sincretismo com os santos católicos, pelas tradicionais Casas de Candomblé cujas raízes foram plantadas no Nordeste do país, mais precisamente em Pernambuco e na Bahia. A Umbanda por sua vez, a consulta é feita através de um médium "incorporado" , e os "trabalhos" pelo espírito ali incorporado com seus elementos rituais.

A VERDADE A QUALQUER CUSTO - DOA E QUEM DOER

Umbanda é deste século, e utiliza os orixás do Candomblé, sob outra forma e outro aspecto, em especial, vou me ater a figura de Exú. Na sua qualidade de ser ambivalente, positivo e negativo, bem e mal, de uma forma definitiva, esta situação de bem e mal, também está associado à todos os seres humanos, e nem por isso, somos o diabo, ninguém é totalmente bom, 24 horas por dia, 360 dias por ano, a sua vinda inteira; o inverso também é verdadeiro, convivemos com o bem e o mal, porém Exú, na sua condição, só fará alguma coisa, se e somente se, for mandado, portanto quem faz o mal na realidade é quem pede, e que pela própria lei da natureza, pagará, pois segundo a lei mais certa que existe, a lei do retorno - "Toda ação gera uma reação, com a mesma intensidade, em sentido contrário", quer dizer, tudo que vai, volta, a experiência nos comprova isto, e geralmente, da forma que mais dói, no bolso ou na saúde (tarda mas não falha); isso posto, em quem está a maldade? Sem mandante, ela simplesmente não existiria, e, mais uma vez EXÚ PAGA O PATO. Em mais de vinte anos de pesquisa, e não foi pouca, as maiores e melhores obras, dos maiores e melhores autores, sobre religiões africanas, sejam brasileiros, ingleses, franceses, africanos, babalorixás, antropólogos, babalaôs, nunca li nada que se referisse à exú mulher, ao contrário, sua forma é fálica (forma de pênis), sempre no sentido de elemento fecundador, fertilizador e nunca elemento fecundado, nunca houve qualquer simbolismo ou ligação com uma "vagina", em sua ambivalência, assume situações duplas, mas nunca, macho e fêmea. Tudo se inicia, com a palavra bombogira, que é o nome dado à Exú macho por excelência na nação de Angola, uma corruptela desta palavra, utilizada somente pela Umbanda, gerou a expressão "pombogira", como forma de um exú mulher, em cuja manifestação, a pessoa, seja homem (homem?) ou mulher, assume uma atitude sensual, atrevida e em alguns lugares, sob esta manifestação, a prática do ato sexual em si; é muito comum, se a mulher tem vontade, libido forte ou até mesmo por necessidade (a prostituição), é porque uma pombagira está "encostada", o que seria uma situação normal, natural; A POMBA GIRA PAGA O PATO. Qualquer incorporação, deste gênero, que se fale com as pessoas, beba ou fume em público, não é Candomblé, é umbanda; a única manifestação "semelhante" no Candomblé, é a figura do Erè, que, assim como o orixá, é um elemental da natureza, com uma conduta infantilizada, e que nunca passou pela vida, portanto não é um egun (espírito de morto), tem função específica, uma delas, se comunicar pelo orixá, justamente pelo fato de que ele não fala, que nos referimos como "estado de erê", tal pessoa está com, ou de, erê. A incorporação, eu imagino, vem de necessidade do ser humano (que é incrédulo por natureza), de crer e confiar, para crer, tem que "ver" algo, no caso o espírito manifestado, falar com ele, ouvir coisas que confirmem ser real ( o que muitas vezes acontece), e para confiar, o consultor não poderá se "lembrar" do que ouviu, como confidência, ou segredo, pois em várias situações, estão envolvidos, conversas e pedidos escusos, se utilizando assim da "inconsciência" relatada nas religiões africanas, a qual também a coloco, em outro capítulo da forma como a vejo e sinto. Falo muita propriedade e experiência, pela vivência de muitos anos no meio, o objetivo não é em momento algum, desmascarar quem quer que seja, muito menos denegrir, desmerecer ou tirar o valor da Umbanda, pelo contrário, bem praticada e bem conduzida, tem enorme valor e função social na comunidade, quer seja: na solução de problemas de saúde, família, trabalho, amor... Existe forte vibração de uma energia, no ato da "incorporação", variando muito de pessoa para pessoa, em muitos casos, com real valor e força, porém, a inconsciência total... o único objetivo é : a realidade, que é benéfica para todos nós, a medida em que nada temos que esconder.

 

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O Motivo..

"Por mais que façamos pelas pessoas sempre haverá alguém que achará que foi pouco e sempre haverá um dia em que acharemos que o que fizeram por nós foi pouco"

Para se fazer uma obra deste gênero, é preciso uma boa motivação, neste caso uma somatória de razões: uma certa discriminação dos praticantes; um ataque exacerbado de outras religiões que para se promover, se aproveitam do desconhecimento de uma parte do povo, e nossa própria falta de organização; o desconhecimento de muitos por falta de uma linguagem simples e aplicativa; o Eró (segredo) exagerado por parte de Babalorixás e Iyalorixás, no afã de manter seus filhos da santo "prisioneiros" do seu conhecimento, como se fossem o supra sumo e único dono da verdade.

"O Direito e a liberdade para criticar nos leva ao dever de uma solução apresentar"

Como motivo maior, a falta de alguma forma de espiritualidade, que é a grande causa do aumento dos males do povo. Seguindo o mesmo princípio de que teremos um corpo saudável, a medida em que nos protegemos e fortalecemos fisicamente, quanto mais saudável e bem alimentado estivermos, mais imunes estaremos para com as doenças; espiritualmente, seguimos da mesma forma; quanto mais estivermos fortalecidos espiritualmente, maior será nossa imunidade contra os males que não enxergamos a olho nu: as energias negativas nas suas mais diversas formas.

Esta é uma visão totalmente de: dentro para fora, não para sua defesa, porque a mesma não precisa, tampouco para angariar adeptos, mas, para mostrá-la como ela é, e aconselhar ao leitor(a), a esvaziar a sua cabeça de todo e qualquer conceito ou preconceito negativo, quer seja por má informação, má iniciação, má experiência ou pessoas que tenha conhecido, praticantes, que como muitas, pecam pela ignorância, vaidade ou maldade, usando de forma errada, incompleta ou interesseira esta belíssima religião, a nós legada, pelo povo mais antigo do planeta, que pelo fato de ter sido o primeiro, portanto primeira criação Divina na terra, não poderia, jamais, pela própria interferência de Deus, ser um mau exemplo para a humanidade futura, com práticas religiosas absurdas, descabidas ou malignas como querem alguns; Faça você leitor(a), sua "nova" avaliação dessa maravilhosa religião que é o CANDOMBLÉ.

Com apenas um comparativo, teremos uma grande conclusão: De uma maneira generalizada as pessoas se alimentam, no mínimo três vezes ao dia, ou seja, café da manhã, almoço e jantar, um mínimo suficiente e necessário para uma vida saudável sem grandes interferências de doenças, ao menos as mais comuns; e espiritualmente, quantas vezes nos alimentamos por dia? Em uma grande maioria: nenhuma! Agora pergunto? o que é mais importante, nosso corpo físico ou a parte espiritual? Até hoje não encontrei um só, que não respondesse o óbvio - a parte espiritual - conclusão óbvia; "Se não alimentamos nosso espírito diariamente ao menos uma só vez, é evidente que o mesmo está e estará debilitado, nos sujeitando e expostos a todo e qualquer tipo de "sujeira astral", as cargas negativas" sobre as quais iremos relatar nesta obra.

A falta até mesmo de uma manutenção, da espiritualidade, pois é como uma planta, que deve ser regada todo tempo para não morrer, gera uma procura de pessoas às mais diversas formas de religiões ou afins, para solução dos males, os quais, muitos deles poderiam ser evitados. Com uma boa dose de espiritualidade, ainda assim as dificuldades e problemas existem, quanto mais para quem não a tem e cultiva.

"Falem dos meus defeitos, mas não me tirem as qualidades"

 

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Xangô..

... Naquela época, ir à Bahia e não visitar Mãe Menininha do Gantóis era como ir à Roma e não ver o Papa. Fui. Não creio em bruxas mas que elas existem, existem. Não posso dizer que sou, nem que não sou religioso. Como todo bom brasileiro fui criado e malcriado nesse cadinho louco de sincretismo religioso e cultural em que vivemos.

 Não deixo de acender minhas velas para algum anjo da guarda que por ventura esteja perdendo seu tempo comigo. Mas não escapo de uma benzidinha rápida, também,  nos momentos de aperto.

Na minha ida ao centro de Mãe Menininha tinha uma cisma antiga pra resolver: em diversos contatos anteriores, com quem entende  do riscado, fiquei sabendo que meu Orixá era Xangô. Justiceiro, valente, determinado, reservado, cheio de paixão, características que qualquer um teria orgulho de ostentar. Nos meus momentos de precisão sentia um certo alívio  em saber que tinha a proteção de tão poderosa entidade. Então lá estava eu querendo a confirmação do santo protetor.

Jurei a mim mesmo que não diria nada, nem uma palavra, boca selada diante de Mãe Menininha. Sua sensibilidade, pensei, saberia descobrir quem me protege. Quase morri de pena ao saber que ela estava ocupada e  não poderia me atender. "Uma olhadinha de longe que seja" ...choraminguei.

Devo ter feito uma tal cara  de desconsolo que a moça que me deu  a má notícia me puxou pela mão. Entramos numa sala. No fundo, sentada na frente de um casal de felizardos, a maravilhosa mãe de santo jogava búzios. "Mãe Menininha?"_a moça chamou. Ela levantou os olhos, deu de cara comigo e exclamou: "Ah! Xangô".

Mais nada. Voltou a seus afazeres como se nada tivesse acontecido. Senti um dedo gelado correr minha espinha e dei a volta, agradecido pela confirmação. Nunca mais esqueci aquele momento.

E eis que hoje, tantos anos passados desse encontro, abro um livro de Orixás e descubro uma tabela  de orientação para descobrir seu protetor. Faço as contas só pra constar. Já sei quem é o meu, é claro. E nada de Xangô. Refaço as contas, angustiado. Nada. Iansã, Obaluayê, Iemanjá, menos Xangô. Fico desarvorado, órfão, desprotegido, sem rumo.E agora? Tenho passado por maus momentos. Será um sinal de desagrado de meus verdadeiros protetores? E os maravilhosos momentos que tive até aqui? Terá sido Xangô, agradecido por tanta devoção, mesmo que deslocada? "Há mais mistérios no céu e na terra do que sonha nossa vã filosofia". 

Ontem descobri que colunista também tem férias. Vou tirar as minhas. Faz quase dois anos que você me l6e toda segunda nessa coluna, acho que não vai sentir muita falta, no próximo mês. Até lá espero a proteção de meus novos Orixás, mas ainda peço pra Xangô um olhar de carinho sobre mim. Detesto traições. Até o mês que vem. ... 

[ Antônio Fagundes, 50 anos, Jormal Agora São Paulo ]

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É uma Religião.

"Os deuses não nos revelaram desde o princípio todas as coisas, mas, com tempo, se buscarmos, poderemos aprender, conhecê-las melhor. A verdade certa, contudo, ninguém jamais a conheceu nem conhecerá : a dos deuses ou a de todas as outras coisas, mesmo se por acaso alguém pronunciasse o nome da verdade última, não poderia reconhecê-la; neste universo de opiniões"Karl Popper."

O CANDOMBLÉ é uma religião dinâmica, ao contrário do imaginação de muitos, pela sua variedade de deuses, é essencialmente monoteísta, crê em um único Deus e criador, Olorún (olo=dono, senhor ; orun= céu, espaço celeste sagrado), que criou o céu e a terra, os orixás e o homem. O Orún sua moradia e dos Araorún, todos os ancestres e elementais divinizados; o Aiyé, moradia dos Araiyé, os seres humanos, os animais, vegetais, minerais e toda forma da natureza; os orixás, elementais da natureza por excelência, guardiões e fiscais da mesma, energia indispensável para toda sobrevivência, com função dupla: reger e cuidar da natureza em si e da natureza humana; o homem, objeto maior da sua criação, para de tudo usufruir dentro dos critérios do seu Criador. A teologia yorubana, só faz referência ao Orún e Aiyé , em momento algum, em qualquer circunstância, sobre as palavras - inferno e pecado - as leis, a lógica, o bom senso e os ensinamentos permeiam a conduta das pessoas, e, mesmo porque são termos posteriores à criação do homem pela teologia yorubana. No candomblé nada se inventa, tudo se aprende, o saber e o conhecimento só vem com o tempo, ensinamento, humildade, axé, merecimento e compreensão; a sua prática tende a se adaptar, pelo crescimento e modernidade do mundo, professando a sua religião através dos seus ritos, cada vez mais, confinados no seu Ilê Axé (casa de candomblé); muita coisa mudou, as leis ambientais, que fixa como crime, "sujar" a natureza, não sendo mais permitido os ebós, oferendas e rituais em matas e cachoeiras, acertadamente a conscientização de se preservá-la, os orixás na sua sabedoria com certeza agradecem e veicularão seu axé, através dos seus elementos símbolos, no interior dos ilês , os beneficiados diretos serão os próprios praticantes, que terão uma natureza mais limpa, saudável e abundante, sendo casa vez mais uma fonte inesgotável de axé. Também cabe uma atenção especial à uma alteração de comportamento, com relação ao uso do obéxirê (navalha), com o advento da AIDS e outras doenças contagiosas ( hepatite, dengue, malária...), nas cerimônias de uso coletivo, com a da Sexta-feira santa, dia de abertura de "curas" nas casas de candomblé, muitas já aderiram ao uso de lâmina descartável, adaptação correta e necessária, é óbvio e evidente que se deve preservar tudo que for possível em prol de uma identidade própria que a religião requer.

 

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Origens do Candomblé.

Hoje, quando se fala em "candomblé", o que se tem em mente é um tipo específico de religião formada na Bahia, denominado candomblé "queto" ou "Ketu", que atualmente pode ser encontrado em praticamente todo o País. Mas o termo candomblé designa muitas variedades religiosas, como veremos adiante.

      O candomblé e demais religiões afro-brasileiras tradicionais formaram-se em diferentes áreas do Brasil com diferentes ritos e nomes locais derivados de tradições africanas diversas: candomblé na Bahia, xangô em Pernambuco e Alagoas, tambor de mina no Maranhão e Pará, batuque no Rio Grande do Sul e macumba no Rio de Janeiro.

A organização das religiões negras no Brasil deu-se bastante recentemente, no curso do século XIX. Uma vez que as últimas levas de africanos trazidos para o Novo Mundo durante o período final da escravidão (últimas décadas do século XIX) foram fixadas sobretudo nas cidades e em ocupações urbanas, os africanos desse período puderam viver no Brasil em maior contato uns com os outros, físico e socialmente, com maior mobilidade e, de certo modo, liberdade de movimentos, num processo de interação que não conheceram antes. Este fato propiciou condições sociais favoráveis para a sobrevivência de algumas religiões africanas, com a formação de grupos de culto organizados.

Até o final do século passado, tais religiões estavam consolidadas, mas continuavam a ser religiões étnicas dos grupos negros descendentes dos escravos. No início deste século, no Rio de janeiro, o contato do candomblé com o espiritismo kardecista trazido da França no final do século propiciou o surgimento de uma outra religião afro-brasileira: a umbanda, que tem sido reiteradamente identificada como sendo a religião brasileira por excelência, pois, nascida no Brasil, ela resulta do encontro de tradições africanas, espíritas e católicas.

Desde o início as religiões afro-brasileiras formaram-se em sincretismo com o catolicismo, e em grau menor com religiões indígenas. O culto católico aos santos, numa dimensão popular politeísta, ajustou-se como uma luva ao culto dos panteões africanos. A partir de 1930, a umbanda espraiou-se por todas a regiões do País, sem limites de classe, raça, cor, de modo que todo o País passou a conhecer, pelo menos de nome, divindades como Iemanjá, Ogum, Oxalá etc.

O candomblé, que até 20 ou 30 anos atrás era religião confinada sobretudo na Bahia e Pernambuco e outros locais em que se formara, caracterizando-se ainda uma religião exclusiva dos grupos negros descendentes de escravos, começou a mudar nos anos 60 e a partir de então a se espalhar por todos os lugares, como acontecera antes com a umbanda, oferecendo-se então como religião também voltada para segmentos da população de origem não-africana. Assim o candomblé deixou de ser uma religião exclusiva do segmento negro, passando a ser uma religião para todos. Neste período a umbanda já começara a se  propagar também para fora do Brasil.

 Durante os anos 1960, com a larga migração do Nordeste em busca das grandes cidades industrializadas no Sudeste, o candomblé começou a penetrar o bem estabelecido território da umbanda, e velhos umbandistas começaram e se iniciar no  candomblé, muitos deles abandonando os ritos da umbanda para se estabelecer como pais e mães-de-santo das modalidades mais tradicionais de culto aos orixás. Neste movimento, a umbanda é remetida de novo ao candomblé, sua velha e "verdadeira" raiz original, considerada pelos novos seguidores como sendo mais misteriosa, mais forte, mais poderosa que sua moderna e embranquecida descendente, a umbanda.

Nesse período da história brasileira, as velhas tradições até então preservadas na Bahia e outros pontos do País encontraram excelentes condições econômicas para se reproduzirem e se multiplicarem mais ao sul; o alto custo dos ritos deixou de ser um constrangimento que as pudesse conter. E mais, nesse período, importantes movimentos de classe média buscavam por aquilo que poderia ser tomado como as raízes originais da cultura brasileira. Intelectuais, poetas, estudantes, escritores e artistas participaram desta empreitada, que tantas vezes foi bater à porta das velhas casas de candomblé da Bahia. Ir a Salvador para se ter o destino lido nos búzios pelas mães-de-santo tornou-se um must para  muitos, uma necessidade que preenchia o vazio aberto por um estilo de vida moderno e secularizado tão enfaticamente constituído com as mudanças sociais que demarcavam o jeito de viver nas cidades industrializadas do Sudeste, estilo de vida já, quem sabe?, eivado de tantas desilusões.

O candomblé encontrou condições sociais, econômicas e culturais muito favoráveis para o seu renascimento num novo território, em que a presença de instituições de origem negra até então pouco contavam. Nos novos terreiros de orixás que foram se criando então, entretanto, podiam ser encontrados pobres de todas as origens étnicas e raciais. Eles se interessaram pelo candomblé. E os terreiros cresceram às centenas.

Variantes e nações.

O termo candomblé designe vários ritos com diferentes ênfases culturais, aos quais os seguidores dão o nome de "nações" (Lima, 1984). Basicamente, as culturas africanas que foram as principais fontes culturais para as atuais "nações" de candomblé vieram da área cultural banto (onde hoje estão os países da Angola, Congo, Gabão, Zaire e Moçambique) e da região sudanesa do Golfo da Guiné, que contribuiu com os iorubás e os ewê-fons, circunscritos principalmente aos atuais território da Nigéria e Benin. Mas estas origens na verdade se interpenetram tanto no Brasil como na origem africana.

Na chamada "nação" queto, na Bahia, predominam os orixás e ritos de iniciação de origem iorubá. Quando se fala em candomblé, geralmente a referência é o candomblé queto e seus antigos terreiros são os mais conhecidos: a Casa Branca do Engenho Velho e duas casas derivadas da Casa Branca, o Axé Opô Afonjá e o Gantois; além do candomblé do Alaketo. O candomblé queto tem tido grande influência sobre outras "nações", que têm incorporado muitas de suas prática rituais. Sua língua ritual deriva do iorubá, mas o significado das palavras e a sintaxe em grande parte se perderam através do tempo. Além do queto, as seguintes "nações" também são do tronco iorubá (ou nagô, como os povos iorubanos são também denominados): efã e ijexá na Bahia, nagô ou eba em Pernambuco, oió-ijexá ou batuque de nação no Rio Grande do Sul, mina-nagô no Maranhão, e a quase extinta "nação" xambá de Alagoas e Pernambuco.

A "nação" angola, de origem banto, adotou o panteão dos orixás iorubás (embora os chame pelos nomes de seus esquecidos inquices, divindades bantos, assim como incorporou muitas das práticas iniciáticas da nação queto. Sua linguagem ritual, também intraduzível, originou-se predominantemente das línguas quimbundo e quicongo. Nesta "nação", tem fundamental importância o culto dos caboclos, que são espíritos de índios, considerados pelos antigos africanos como sendo os verdadeiros ancestrais brasileiros, portanto os que são dignos de culto no novo território a que foram confinados pela escravidão. O candomblé de caboclo é uma modalidade da nação angola, centrado no culto exclusivo dos antepassados indígenas. Foram provavelmente o candomblé angola e o de caboclo que deram origem à umbanda. Há outras nações menores de origem banto, como a congo e a cambinda, hoje quase inteiramente absorvidas pela nação angola.

A nação jeje-mahin, do estado da Bahia, e a jeje-mina, do Maranhão, derivaram suas tradições e língua ritual do ewê-fon, ou jejes, como já eram chamados pelos nagôs, e suas divindades centrais são os voduns. As tradições rituais jejes foram muito importantes na formação dos candomblés com predominância iorubá.

Mais recentemente, quando o candomblé (de origem baiana, nação queto) já se encontrava espalhado por todos os grandes centros urbanos, tendo já, inclusive, iniciado sua propagação por países do Cone Sul e também da Europa, iniciou-se um movimento de recuperação de raízes africanas conhecido como "africanização", que rejeita o sincretismo católico, procura reaprender o iorubá como língua original e tenta reintroduzir ritos que se perderam ao longo do tempo e redescobrir os mitos esquecidos dos orixás.

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Ética nas Religiões Afro Brasileiras.

(Palestra apresentada no 1º Congresso de Cultura Afro-Brasileira,

Uberlândia, MG, Set./1999)Toy Vódunnon Francelino de Shapanan

Temos que ter muito claro que para falarmos de ética dentro de uma determinada religião o primeiro impulso que devemos ter é de fazermos uma separação entre o que se entende por bem e mal. Ao falarmos da religião de Umbanda e das religiões Afro-brasileiras ou afro-descendentes como preferem alguns, não podemos nos envolver com conceitos cristãos de pecado, haja visto não fazer parte de nosso universo religioso.

Estas religiões, desde que existem, têm normas que lhes norteiam mas que nem sempre são do conhecimento e observância de seus sacerdotes, pois cada Babalorixá /Iyalorixá ou Dirigente Espiritual cuida de colocar suas próprias normas dentro de suas Casas. Isto ocorre até porque não temos um único Mandatário Supremo, todos são supremos em seus Axés. Porém, isto não impossibilita que todos se unam para zelar pelos "Códigos de Ética" que sempre existiram, muito embora a idéia é que só agora estamos criando essas normas.

Ocorre que para isto todos somos chamados a observar e cumprir com essas posturas, passarmos para nossos filhos e simpatizantes aí já estaremos ajudando e muito para que a religião tenha seu lugar de respeito e credibilidade. Como disse, tenta-se por no papel aquilo que na prática já existe e só precisa ser observado.

Vejamos pois que normas, que códigos devemos observar:

1. É imperativo que dentro da Umbanda e dos Cultos Afro-brasileiros, todos estejam preocupados em manter a tradição religiosa e cultural de seu grupo, sem misturas e enxertos, sem junções e adições absurdas e desastrosas e que estas mesmas religiões deixem de se preocupar apenas com a parte litúrgica, para também se dedicarem ao bem-estar das pessoas, da comunidade como um todo, do país, do mundo, e também que esteja sempre presente a preocupação na preservação do meio ambiente, lembrando que somos uma religião ecológica por excelência.

2. Precisamos aprender a respeitar a nação do outro, pois todos os segmentos têm origem em comum na Mãe África, cultuam Orixá, Vodun, Nkissi, Bacuro, Encantados e Guias que são muito queridos e amados por seus adeptos. O desrespeito à liturgia e ao ritual de cada um incorre num grande mal para toda a comunidade afro-brasileira.

3. Precisamos ter respeito com os mais velhos, com os Agba da religião, com nossos ancestrais. Vê-se hoje em dia pessoas novas chamando a atenção e querendo ensinar os mais antigos. Se os mais velhos não souberem nada, o que diremos dos novos? Pensamos que se precisa de entendimento e muito diálogo entre as gerações a fim de se tirar o melhor proveito. Mas tudo com seriedade e dignidade.

4. Em todos os grandes eventos (Congressos, Seminários, Encontros etc.), deve-se ter um Cerimonial adequado para se ver "quem é quem", dando-se as devidas precedências e evitando-se constrangimentos ao se destacar, por exemplo, um filho em detrimento de seu pai. É anti ético.

5. Nas festas religiosas (Toques), devemos nos preocupar com nossos convidados e dar-lhes a atenção devida, também fazendo com que todo o Egbé saiba se portar e respeitar. É desagradável chegarmos a lugares onde muitos torcem a cara e ignoram aqueles que com carinho ali estão para prestigiar e participar.

Urge que conversemos com nossos Sacerdotes e adeptos para que não confondam religião com "questões sexuais". Graças à Avievodum, Olodumare, Zambiapongo, temos uma religião liberal que não nos castra. Entretanto, muitos aproveitam-se de seus cargos e postos para desfilarem frustrações sexuais e travestirem nossa Religião colocando-nos em descrédito perante às autoridades e à própria sociedade; Devemos lutar pela união sincera e verdadeira das pessoas interessadas na preservação dos nossos segmentos religiosos. A discórdia, a desunião, a intriga só enfraquece a própria religião. Cada um deve fazer sua parte, com critérios, com seriedade, com dignidade. Não devemos nos ver como concorrentes mas como membros unidos de um mesmo corpo. Precisamos acabar com a idéia de que um é melhor que o outro. Para nossos Deuses somos todos iguais. Será, por exemplo, que meu Vodum Toy Azonce só gosta de mim e não gostará de outros seus filhos? Será que Odé, Oxósse, Águè só ama um filho e esquece os outros? Não, certamente que não, o problema é individual, é pessoal, é falta de boa formação, de bom berço; Vamos lutar para que os Congressos sejam fórum de grandes decisões, de momentos de verdadeiras reflexões, de congraçamentos, de bons e felizes reencontros e não que deixemos nossos lares para nos virmos nos degladiar.

Não devemos confundir pontos de vista diferentes com geração de ódio. Isso não é ético; Vamos valorizar com toda sinceridade as diferentes formas tradicionais dos cultos afros. Lutemos por uma união e não por uma unidade. Daí o lema da INTECAB que é a "união na diversidade"; Resgatemos a língua de cada culto e devemos usar nossos títulos corretamente. Jamais deve-se estimular o absurdo, a invencionice, títulos inadequados. Por exemplo: não é ético chamarmos uma Sacerdotisa de Umbanda de Iyalorixá pois esta não foi iniciada e nem inicia ninguém. Seu grande valor está em ser uma Dirigente Espiritual, uma digna Babá de Umbanda sem nenhum demérito de seu potencial espiritual e material; Todos temos o dever de recusar a efetivação de rituais religiosos que firam sua tradição de origem e sejam contrários aos ditames de sua consciência; É de suma importância zelar pela dignidade da tradição e cultura Afro-brasileira em todos os seus níveis de desdobramentos, sendo este o papel preponderante de todos os verdadeiros Sacerdotes; Somos todos tradicionalistas: da Umbanda, do Kêtú, do Mina Jêje, do Ifon, da Angola, do Jêje Mahi, do Omolocô, do Nagô Egbá, do Alakêtú, do Mina Nagô, da Encantaria, da Tradição de Orixá ou do Fanti-Ashanti, desde que sigamos nossos rituais e costumes legados por nossos antepassados. Esta é uma postura ética que precisa ser levada em conta; A exploração que alguns sacerdotes fazem com seus filhos é imoral, antes de ser ética, e precisa de grandes reflexões. Tenta-se criar a idéia de que quanto mais dinheiro, mais axé, e assim torna-se comércio. Cobrar "salva" ou chão" é entendido como axé, mas exploração é caso de polícia; Outro tema polêmico e delicado diz respeito a quebra de tabus religiosos, incluindo-se nestes os relacionamentos sexuais entre pais e filhos de uma mesma casa. Comete-se o incesto; Finalizamos abordando a questão do "Jogo de Búzios" antes exercido somente por grandes e sábios sacerdotes e sacerdotisas, de forma extremamente sagrada, e hoje feito em praças públicas, viadutos, feiras esotéricas, shoppings, sem falar no "disque búzios" e "0900", que tanto entristecem os tradicionalistas.

 

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Odù, Calendários, Etc.

Costumo ler a bíblia (agora nem tanto), procurando, sempre, interpretar as revelações ali contidas, de forma hermética, escondidas sob alegorias. Independente disto, jamais observei, em qualquer dos livros que a compõem,qualquer citação ao oráculo de Ifá. Gostaria, portanto, que me auxiliasse, indicando o local exato, livros, capítulos e versículos, onde poderei encontrar tais referências. Quer me parecer que, mesmo havendo citações na bíblia sobre o referido oráculo, nada prova que tenha se embasado sua utilização, em qualquer calendário de qualquer povo ou cultura. Quanto à descoberta de Napoleão, citada numa das mensagens, não se refere ao oráculo de Ifá e sim à Geomancia Árabe, ciência mântica que deu origem ao referido oráculo. É certo que após tomar conhecimento da existência daGeomância Árabe, Napoleão passou a estudá-la profundamente, tornando-se, mais tarde um geomanta, consultando regularmente aquele oráculo. Um outro engano é a rotulação de "hierofantes" dada aos sacerdotes de Ifá. Os hierofantes eram sacerdotes de Ceres, deidade grega cultuada em templo erguido em sua honra na antiga cidade grega de Ática, nenhuma relação com Ifá e seus sacerdotes. Se me permitir, gostaria ainda de discordar de que a semana nagô, composta de quatro dias, possa ser considerada como um calendário, tendo em vista que um calendário, de qualquer origem, é uma forma bastante complexa de contagem de tempo, onde deverão constar, devidamente ordenados e numerados, dias, semanas, meses, anos, fases da lua, horas das marés e outros fatos cronológicos. Outrossim, o sistema de Ifá não é de base 4 e sim um sistema binário onde existem apenas dois tipos de sinais (simples e duplos). A inexistência de sinais triplos e quádruplos deixa claro que não tem, como base, o 4.


Mas tudo isto é irrelevante em relação à minha afirmativa de que o sistema de Ifá não se baseia em datas de qualquer calendário, seja qual for a sua origem. Quanto às relações à tempo e espaço fazem o discurso parecer surreal, além de muito incoerente. As afirmações se contradizem a cada passo e o que é usado aqui, como prova de alguma coisa, é usado, acolá, para provar o contrário. Tempo e espaços são coisa geradas nas limitações que nos são impostas pelo encarceramento na matéria e, em outros planos talvez não existam ou existam de forma diferente. A tentativa destabelecer parâmetros entre as figuras oraculares de Ifá e a noção de espaço-tempo torna-se infrutífera e se perde num emaranhado de teorias confusas e sem a menor consistência. Por outro lado, Odu não pode ser considerado como "espaço místico" e muito menos podem significar "coisas diferentes em tempos diferentes" . Os Odus seriam muito mais, utilizando-se apenas como ilustração figuras bem modernas, espécies de "arquivos" nos quais está distribuído e perfeitamente organizado, todo o tipo de conhecimento que já foi e que será ainda acessado pela humanidade. Seria o "banco de dados" onde está depositada toda a Sabedoria Divina personalizada na figura de Orunmilá. Poderia, ainda, serem considerados como "canais de acesso" que possibilitam a comunicação, em via dupla, entre os homens e as entidades de outros planos e, neste caso, a "Internet" é Exú e, por vezes, o próprio Orunmilá. Sob um outro prisma, os Odus podem ser vistos, ainda, como coletâneas de leis naturais e das conseqüentes sanções impostas a quem as desrespeita. O Odu pessoal de um ser humano, fala de sua essência natural e de tudo o que a ela está ligado originalmente e sobre isto, nada mais pode ser dito de público. É bem verdade que o sistema matemático constante das configurações dos Odu-Ifá e da seqüência de seus surgimentos não é um sistema vigente no ocidente, até porque matemática é ciência exata e. como tal, não sofre influência cultural de nenhuma espécie. Não pertence à cultura ocidental ou oriental, é a ciência do Universo, a Ciência Divina na qual tudo está embasado e que nos ensina que: " A unidade (1) representa o princípio de tudo. Representa, primordialmente a Deus que, sendo um só, é a Infinita Unidade do Ser. Esta Unidade Infinita, desdobrando-se, cria a natureza que, sendo o plano da criação, é representada pelo numero dois (2). É na dualidade que surge a distinção entre os opostos: bem e mal, positivo e negativo, quente e frio, macho e fêmea, luz e treva, ação e inércia. Quando a unidade age sobre a dualidade , gera o número 3, considerado como o número da forma, já que não pode existir forma sem três dimensões: comprimento , largura e espessura. Cada ação pressupões três condições: o agente, o processo da ação em si e o objeto em que se reflete a ação. A ação da unidade (1) sobre a tríade (3) gera o quaternário (4) e aí a obra está completa. O 4 representa a harmonia, é o número dos elementos da
natureza, dos pontos cardeais. Daí, nas figuras de Ifá encontrarmos quatro combinações de sinais simples e duplos representando, de acordo com suas combinações, os elementos da natureza e não os seres elementais que a eles
correspondem. É útil lembrar, ainda, que quatro são as estações do ano, e existem quatro planos de existência: Físico, Mental, Psíquico e Espiritual. o tetragrama é a representação simbólica, de tudo isto. Completada a obra, tudo retorna à unidade. O ciclo se reinicia e o início é o 1. Esta é a matemática de Ifá, que é a matemática do universo e que nada tem a ver com aritmética ou com calendários. Aí estão revelados os ensinamentos
contidos nos quatro primeiros Odus de Ifá: Ogbe, Oyeku, Iwori e Odi. A Kabalah judaica, cujos guardiões eram os sacerdotes da Ordem Branca dos Essênios, em nenhum momento estabelece alianças ou sofre influência da cultura afro-negra e está embasada nos mistérios inerentes à Árvore da Vida e ao valor das letras que compõem o alfabeto hebreu, todas relacionadas às potências contidas no valor mágico dos algarismos. A Geomancia Árabe e, por conseqüência, a Geomancia Africana (Oráculo de Ifá), têm sim, suas origens no I-Ching - o Livro das Mutações. – cujo círculo mágico primordial é composto de dezesseis figuras onde se encontram combinados em número de quatro, traços inteiros e traços bipartidos. São estes tetragramas que, combinados, irão proporcionar o surgimento dos hexagramas que compõem o I - Ching. A origem deste oráculo se perde no tempo e não se pode estabelecer uma época ou um local para o seu surgimento. Aos olhos dos chineses, na antigüidade, o I-Ching seria o princípio
revelador de toda a sabedoria, o fundamento de todas as ciências e a base de todas as doutrinas.
Para atestar a ancianitude deste oráculo encontramos num dicionário chinês do período Han, dinastia que governou a China por mais de 400 anos: "No tempo da Dinastia Yao, já se conhecia o I-Ching". ( A dinastia Yao teria sido fundada entre os anos 2350 e 2360 AC). É de Confúcio, sábio chinês, a seguinte afirmativa: "Se mais anos de vida me forem concedidos, eu os dedicarei ao estudo do I-Ching e poderei, assim, me livrar de grandes perigos". Nossos Orixás são forças da natureza, estão ligados aos elementos naturais sendo, portanto, seres elementais por excelência, de altíssima hierarquia e atributos que lhes confere o poder de comandar e submeter às suas ordens, os
seres elementais de categorias inferiores. É na ação destes servidores, sob o comando de seus mandatários que serão operadas as magias, os feitiços e todos os sortilégios. Mas importa saber que, os signos de Ifá, embora tenham o poder de evocar e de estabelecer o contato entre o homem e estas entidades, não são estas entidades, da mesma forma que, um ponto riscado de Umbanda que serve para evocar uma entidade, como um Caboclo, por exemplo, não é esta entidade. No exemplo citado, uma vez evocado o Caboclo, o que é digno de culto e de oferendas, o Caboclo ou seu ponto riscado? Quando nos referimos aos Odu, não nos referimos às entidades de todas as ordens que podem, eventualmente, se comunicar através deles. Nos referimos, isto sim, à símbolos ou signos que compõem um sistema oracular. Símbolos que não carecem nem são merecedores de culto, oferendas ou presentes, mas que
merecem respeito pelo que representam o que nos encita a compreender seus significados e interpretar as mensagens de que são portadores. Isto é por demais abstrato e inacessível à compreensão de muitos. Quanto à afirmativa de que deve-se assentar um Odu para garantir uma situação permanente, eu pergunto: Que situação pode ser considerada permanente na vida de qualquer ser, até mesmo dos inanimados? Como disse o poeta: "Nada do que foi é mais, do jeito que a gente viu há um segundo"... O universo é dinâmico, o mundo gira, gira, gira... Nada é estático, nada é definitivo, nada é permanente. O nascer, crescer, envelhecer e morrer para renascer e recomeçar tudo, nos serve de prova para isto. Eu mesmo já não sou o mesmo que era quando comecei a digitar esta mensagem, assim como todos que a lerem, já não serão, ao terminar a leitura, os mesmos que eram quando a iniciaram. Estaremos, todos, mais velhos, e mais próximos do dia de nossa liberação da casca material. Quanto aos ebós e oferendas, existem sim, e devem ser oferecidos e despachados como manda a velha tradição. Nenhuma novidade nisto, nenhuma
inovação. O que pega é que são os ebós e as oferendas que devem ser despachados e não os Odus. Serão oferecidos à Exú ou a outras entidades, de acordo com a orientação oracular e nunca, jamais, aos Odus que serviram de canais de orientação para suas confecções. Será que isto é tão difícil de compreender? Será que não está suficientemente claro? Um certo homem, depois de muito sacrifício, conseguiu realizar um velho sonho que acalentava há muitos e muitos anos: possuir um relógio da marca Rolex. Tendo conhecido alguém que lhe ofereceu a jóia por um preço relativamente baixo, o bom homem não hesitou em adquirir o relógio, embora, para isto, tivesse que se privar de muitas coisa e de pegar um adiantamento com seu patrão. Mas todo o sacrifício valia a pena e feliz, lá ia ele, exibindo a todos o se Rolex. Certo dia, mostrou o relógio à um velho amigo, muito querido, e a quem devia inúmeros favores. Depois de examinar com atenção a jóia, o amigo sentenciou: "Sinto muito, mas este relógio é falso! Você foi enganado por alguém que, aproveitando-se de sua boa fé, lhe vendeu uma imitação barata, fabricada no Paraguai!"Atônito, o homem tomou, abruptamente, o relógio da mão do amigo e, sem dizer uma só palavra, sem pelo menos um "até logo", afastou-de dele, quase correndo. Nunca mais quis ver o velho amigo. Tomou-se de ódio por ele, que só tentara lhe dizer que portava e fazia uso de uma coisa falsa, sem o mínimo valor.
Esta historinha me faz lembrar uma frase do sábio oriental Nisargadatta Maharaj: "O que vê na ignorância acaba convertendo-se no que viu. O que vê na sabedoria é o vidente!"  Orunmilá Boru, Boiyá, Boxixe! Axé! Axé! Axé!

 

VISÃO DE EKEJI ROVENA, Colhida no Fórum de Discussões Vodum-Jeje.

 

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Última revisão: Março 25, 2003.

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